quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A insustentável leveza da bondade

 

Do lado de fora de uma padaria de posto de gasolina, jazia um homem sentado, com o corpo todo arqueado. Na mesa, uma garrafa de cerveja quente e pela metade.

Um outro homem, que saía da padaria, viu a cena e, compassivo, demonstrou despretensioso interesse:

- Cara, está tudo bem?

O homem levantou a cabeça com alguma dificuldade, apenas o suficiente para que seus olhos alcançassem seu inusitado interlocutor. Então, balbuciou:

- Estou sim.

- Precisa de alguma coisa? Quer que eu traga água?

- Não, não. Estou tranquilo.

- Certeza?

- Sim.

O transeunte se virou para ir embora. Tinha tentado. A consciência estava em paz e o sentimento era de dever cumprido. Involuntariamente, voltou-se para o homem e fez a ele nova oferta de auxílio:

- Não quer nada mesmo?

O homem abaixou o olhar lentamente e não disse nada, de modo que o outro, mais satisfeito com sua dobrada empatia, ensimesmou-se deveras e seguiu sua marcha habitual.

- Eu não deveria ter feito aquilo - sussurrou com acanhamento o homem.

O outro parou, voltou-se apenas meio corpo e questionou:

- Oi?

- Eu não deveria ter feito aquilo - repetiu, dessa vez olhando firme nos olhos de seu interlocutor.

O transeunte continuou voltado para si, mas a satisfação de instantes atrás perdera um pouco do fulgor. Ele, então, soltou um maquinal e conclusivo “é complicado...”.

Com voz trêmula e opaca, o homem insistiu no diálogo e indagou:

- Você acha que existe perdão? Mesmo um grande erro pode ser perdoado?

- Oi? Não entendi.

- Acha que existe perdão? Que podemos ser perdoados? – repetiu, mais assertivo dessa vez.

- Ah, acho que todos são dignos de perdão, sim. Deus nos ama incondicionalmente, sem distinção - completou, solene, o interlocutor.

Pairou um instante de silêncio.

O transeunte decidiu não perder a oportunidade, despediu-se com agilidade e retomou seu rumo, quando novamente ouviu um resmungo, que ele tratou de ignorar.

No entanto, o homem falou com mais potência:

- Você já perdoou alguém?

O outro parou e seus olhos transpareceram involuntário enfado. Ele se voltou e, com velada impaciência, respondeu:

- Olha, a gente sempre tenta. É o certo a fazer, não é? Às vezes é complicado. Depende da situação. Mas, mesmo que seja difícil, é o que devemos fazer. É o certo.

- É...

- Tem certeza que não quer uma Coca? Um salgado? Pego lá dentro para você.

- Obrigado...

- Olha, cara, o que eu posso te dizer é que a gente precisa tentar melhorar - disse o outro, sem muita convicção. Depois permaneceu calado. Decidiu manter-se passivo para não estender a conversa. Sua proatividade o tinha colocado naquela incômoda situação. Começava a se arrepender daquele ímpeto inicial.

Tomado de coragem, o homem continuou:

- O que eu fiz provavelmente não tem perdão.

“Meu Deus, parece que essa conversa vai desandar”, pensou o outro. Ia se virar quando o homem lentamente se levantou e articulou:

- Cara...

O outro o encarou com olhar interrogador.

Tanto mais confiante, o recém-erguido prosseguiu:

- Cara, acho que foi um anjo que colocou você no meu caminho. Eu passei a noite acordado. Bebi, tomei remédios e tentei acabar com tudo. Saí de casa e sentei neste posto para não ficar sozinho. Precisava de pessoas ao meu redor. Senti que isso me impediria de tentar o pior.

- Que isso, meu amigo! Por mais que seja difícil, você não pode desistir.

- É, eu sei que não. Mas há limites que a gente atravessa e não deveria, entende? Tem coisas que a gente não deveria nunca fazer. A gente se perde. Vira outra coisa diferente. Como se fosse obrigado a se ver de longe, ver como somos vistos. E a gente se sente mal com o que vê. Não se imagina sendo uma pessoa ruim.

O homem se calou após aquele solilóquio reflexivo.

O outro sabia que precisava ser rápido, dizer algo. Algo definitivo. Sentiu que o homem preparava terreno para se confessar. Poderia ser qualquer coisa. Uma traição. Um crime. Sabe-se lá o que mais. Não tinha tempo, não tinha ânimo para adentrar em solo desconhecido. Era manhã de domingo. Seus filhos esperavam pelo pão. Nessas circunstâncias, ele asseverou com dignidade:

- Meu amigo, as coisas nem sempre saem como o esperado. Nossa cabeça pensa uma coisa, nossos instintos querem outra e a realidade nos deixa concretizar apenas uma. Mas, a vida ainda é a única coisa que temos para tentar fazer dar certo, não é? Espero que você consiga achar o equilíbrio.

Ditas essas palavras, o homem experimentou um pequeno alívio. Dentro de si, no entanto, irrompeu avassaladora repulsa e horror, que transpareceram em sua face. Ele colocou as mãos na cabeça e a apertou com ferocidade. Seu corpo transpirava desespero. Ele gemia contido e seus olhos se arregalaram assustadoramente.

O pretenso benfeitor viu a cena e olhou sobressaltado para ambos os lados. Procurava um terceiro que viesse em seu auxílio, mas os funcionários do posto seguiam seus roteiros, alheados. Pensou em se aproximar, mas teve receio.

O homem se sentou desajeitado. Parecia que ia desmaiar. Caiu metade do corpo sobre a mesa e derrubou a garrafa de cerveja. Uma das frentistas ouviu o barulho e se preparava para ir ver o que estava acontecendo, quando a chegada de um cliente a impediu.

O outro se viu sozinho. Entendeu que já estava envolvido e não poderia deixar aquele homem naquele estado. Pegou o celular para ligar para a emergência e viu uma mensagem de sua esposa. Não abriu. Também não solicitou ajuda. Ao invés, sentou-se na cadeira ao lado e começou a falar com voz calma:

- Olha, cara, eu devo mesmo ir embora. Mas, antes, preciso saber que você vai ficar bem. Não preciso saber o que aconteceu. Você não tem que me contar. Só quero ir e saber que não vai fazer nenhuma besteira. Liga para alguém da sua confiança. Um amigo. Pede para vir aqui. Vai para casa, toma um banho, descansa. Depois você pensa em como resolver sua situação. Nem sempre a vida é fácil, mas a gente tem que ser forte, acreditar em Deus, nas boas energias.

O pesaroso homem, que ouvia tudo como quem toma conselhos num confessionário, levantou a cabeça e deixou vulneráveis seus olhos marejados.

Sem perceber, o outro foi tragado até as profundezas daquele olhar desprotegido e pôde se conectar com a dor e o desespero do sofrido indivíduo. Uma conexão que durou apenas uns instantes. Rápida e intensa, como são esses inusitados encontros. E desse laço brotou o toque leve de suas mãos no ombro do homem, como quem prenuncia que as coisas vão melhorar.

De certo modo compreendido, o homem disse suspirando:

- Você deve ter razão.

- Tenho sim. No final tudo se ajeita.

- Difícil é a travessia até o final - arrematou o conformado homem.

- Essa é a parte complicada - disse sorrindo o outro, já ansioso pela despedida que se avizinhava. Ele se levantou, pegou o saco de pão e, dessa vez, saiu sem pressa. Já no carro, olhou pelo retrovisor e viu o homem tirar do bolso o que aparentava ser uma carta. Ele a lia com extrema comoção, pausando a leitura diversas vezes para secar as lágrimas que brotavam copiosamente. Sentiu-se angustiado. Havia agora um elo entre ele e aquela amargura. Seus olhos marejaram, mas ele segurou as lágrimas. Ligou o carro e partiu.

Já em casa, foi recebido com desconfiança pela esposa. Os filhos queriam saber o porquê da demora. Pensou em explicar, mas ele mesmo não entendia bem o que havia acontecido. Enquanto preparava a mesa, fez-se soturno, distante dentro de si. Teria mesmo sido um anjo? Ou fora apenas um turista no inferno alheio, em busca do seu prêmio moral antes que fosse queimado pelo calor das chamas?