Do lado de fora de uma
padaria de posto de gasolina, jazia um homem sentado, com o corpo todo arqueado.
Na mesa, uma garrafa de cerveja quente e pela metade.
Um outro homem, que saía
da padaria, viu a cena e, compassivo, demonstrou despretensioso interesse:
- Cara, está tudo bem?
O homem levantou a cabeça
com alguma dificuldade, apenas o suficiente para que seus olhos alcançassem seu
inusitado interlocutor. Então, balbuciou:
- Estou sim.
- Precisa de alguma
coisa? Quer que eu traga água?
- Não, não. Estou
tranquilo.
- Certeza?
- Sim.
O transeunte se virou
para ir embora. Tinha tentado. A consciência estava em paz e o sentimento era
de dever cumprido. Involuntariamente, voltou-se para o homem e fez a ele nova
oferta de auxílio:
- Não quer nada mesmo?
O homem abaixou o olhar
lentamente e não disse nada, de modo que o outro, mais satisfeito com sua
dobrada empatia, ensimesmou-se deveras e seguiu sua marcha habitual.
- Eu não deveria ter
feito aquilo - sussurrou com acanhamento o homem.
O outro parou, voltou-se
apenas meio corpo e questionou:
- Oi?
- Eu não deveria ter feito
aquilo - repetiu, dessa vez olhando firme nos olhos de seu interlocutor.
O transeunte continuou
voltado para si, mas a satisfação de instantes atrás perdera um pouco do fulgor.
Ele, então, soltou um maquinal e conclusivo “é complicado...”.
Com voz trêmula e opaca,
o homem insistiu no diálogo e indagou:
- Você acha que existe
perdão? Mesmo um grande erro pode ser perdoado?
- Oi? Não entendi.
- Acha que existe perdão?
Que podemos ser perdoados? – repetiu, mais assertivo dessa vez.
- Ah, acho que todos são
dignos de perdão, sim. Deus nos ama incondicionalmente, sem distinção -
completou, solene, o interlocutor.
Pairou um instante de
silêncio.
O transeunte decidiu não
perder a oportunidade, despediu-se com agilidade e retomou seu rumo, quando
novamente ouviu um resmungo, que ele tratou de ignorar.
No entanto, o homem falou
com mais potência:
- Você já perdoou alguém?
O outro parou e seus
olhos transpareceram involuntário enfado. Ele se voltou e, com velada
impaciência, respondeu:
- Olha, a gente sempre
tenta. É o certo a fazer, não é? Às vezes é complicado. Depende da situação.
Mas, mesmo que seja difícil, é o que devemos fazer. É o certo.
- É...
- Tem certeza que não
quer uma Coca? Um salgado? Pego lá dentro para você.
- Obrigado...
- Olha, cara, o que eu
posso te dizer é que a gente precisa tentar melhorar - disse o outro, sem muita
convicção. Depois permaneceu calado. Decidiu manter-se passivo para não
estender a conversa. Sua proatividade o tinha colocado naquela incômoda
situação. Começava a se arrepender daquele ímpeto inicial.
Tomado de coragem, o
homem continuou:
- O que eu fiz
provavelmente não tem perdão.
“Meu Deus, parece que
essa conversa vai desandar”, pensou o outro. Ia se virar quando o homem lentamente
se levantou e articulou:
- Cara...
O outro o encarou com
olhar interrogador.
Tanto mais confiante, o
recém-erguido prosseguiu:
- Cara, acho que foi um
anjo que colocou você no meu caminho. Eu passei a noite acordado. Bebi, tomei
remédios e tentei acabar com tudo. Saí de casa e sentei neste posto para não
ficar sozinho. Precisava de pessoas ao meu redor. Senti que isso me impediria
de tentar o pior.
- Que isso, meu amigo!
Por mais que seja difícil, você não pode desistir.
- É, eu sei que não. Mas
há limites que a gente atravessa e não deveria, entende? Tem coisas que a gente
não deveria nunca fazer. A gente se perde. Vira outra coisa diferente. Como se
fosse obrigado a se ver de longe, ver como somos vistos. E a gente se sente mal
com o que vê. Não se imagina sendo uma pessoa ruim.
O homem se calou após aquele
solilóquio reflexivo.
O outro sabia que precisava
ser rápido, dizer algo. Algo definitivo. Sentiu que o homem preparava terreno
para se confessar. Poderia ser qualquer coisa. Uma traição. Um crime. Sabe-se
lá o que mais. Não tinha tempo, não tinha ânimo para adentrar em solo
desconhecido. Era manhã de domingo. Seus filhos esperavam pelo pão. Nessas
circunstâncias, ele asseverou com dignidade:
- Meu amigo, as coisas
nem sempre saem como o esperado. Nossa cabeça pensa uma coisa, nossos instintos
querem outra e a realidade nos deixa concretizar apenas uma. Mas, a vida ainda
é a única coisa que temos para tentar fazer dar certo, não é? Espero que você
consiga achar o equilíbrio.
Ditas essas palavras, o
homem experimentou um pequeno alívio. Dentro de si, no entanto, irrompeu
avassaladora repulsa e horror, que transpareceram em sua face. Ele colocou as
mãos na cabeça e a apertou com ferocidade. Seu corpo transpirava desespero. Ele
gemia contido e seus olhos se arregalaram assustadoramente.
O pretenso benfeitor viu
a cena e olhou sobressaltado para ambos os lados. Procurava um terceiro que
viesse em seu auxílio, mas os funcionários do posto seguiam seus roteiros,
alheados. Pensou em se aproximar, mas teve receio.
O homem se sentou
desajeitado. Parecia que ia desmaiar. Caiu metade do corpo sobre a mesa e
derrubou a garrafa de cerveja. Uma das frentistas ouviu o barulho e se
preparava para ir ver o que estava acontecendo, quando a chegada de um cliente
a impediu.
O outro se viu sozinho.
Entendeu que já estava envolvido e não poderia deixar aquele homem naquele
estado. Pegou o celular para ligar para a emergência e viu uma mensagem de sua
esposa. Não abriu. Também não solicitou ajuda. Ao invés, sentou-se na cadeira
ao lado e começou a falar com voz calma:
- Olha, cara, eu devo
mesmo ir embora. Mas, antes, preciso saber que você vai ficar bem. Não preciso
saber o que aconteceu. Você não tem que me contar. Só quero ir e saber que não
vai fazer nenhuma besteira. Liga para alguém da sua confiança. Um amigo. Pede
para vir aqui. Vai para casa, toma um banho, descansa. Depois você pensa em
como resolver sua situação. Nem sempre a vida é fácil, mas a gente tem que ser
forte, acreditar em Deus, nas boas energias.
O pesaroso homem, que
ouvia tudo como quem toma conselhos num confessionário, levantou a cabeça e
deixou vulneráveis seus olhos marejados.
Sem perceber, o outro foi
tragado até as profundezas daquele olhar desprotegido e pôde se conectar com a
dor e o desespero do sofrido indivíduo. Uma conexão que durou apenas uns
instantes. Rápida e intensa, como são esses inusitados encontros. E desse laço
brotou o toque leve de suas mãos no ombro do homem, como quem prenuncia que as
coisas vão melhorar.
De certo modo
compreendido, o homem disse suspirando:
- Você deve ter razão.
- Tenho sim. No final
tudo se ajeita.
- Difícil é a travessia
até o final - arrematou o conformado homem.
- Essa é a parte
complicada - disse sorrindo o outro, já ansioso pela despedida que se
avizinhava. Ele se levantou, pegou o saco de pão e, dessa vez, saiu sem pressa.
Já no carro, olhou pelo retrovisor e viu o homem tirar do bolso o que aparentava
ser uma carta. Ele a lia com extrema comoção, pausando a leitura diversas vezes
para secar as lágrimas que brotavam copiosamente. Sentiu-se angustiado. Havia
agora um elo entre ele e aquela amargura. Seus olhos marejaram, mas ele segurou
as lágrimas. Ligou o carro e partiu.
Já em casa, foi recebido
com desconfiança pela esposa. Os filhos queriam saber o porquê da demora.
Pensou em explicar, mas ele mesmo não entendia bem o que havia acontecido. Enquanto
preparava a mesa, fez-se soturno, distante dentro de si. Teria mesmo sido um
anjo? Ou fora apenas um turista no inferno alheio, em busca do seu prêmio moral
antes que fosse queimado pelo calor das chamas?