terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Tempo - parte 1


O passado presente;
A angústia que não passa;
O sangramento que não estanca;
A ferida que insiste em não sarar;
A dor que renasce todo dia com o cantar do galo.
São os traumas que ainda hoje decidem,
são os traumas que ainda hoje sussurram:
“reviva-me”...

domingo, 13 de agosto de 2017

Quase música

Sentou-se na soleira da porta. Violão no colo. Queria compor algo. Não sabia bem o que. Ensaiou um blues melancólico que morreu antes da terceira nota. Tentou, em vão, um acorde menor, chorado. Dedilhou, mas nada soava completo, nada traduzia o que se passava por dentro. A cena era angustiante de se ver. As pernas se debatiam freneticamente, os olhos se perdiam com facilidade no tanto-faz de um móvel qualquer. Estralou o pescoço, os dedos, e voltou a movimentar as pernas com certa insanidade. Encostou no batente. Olhou para o violão esperando uma resposta, um diálogo, e ele não veio. Pensou, então, numa letra. Talvez algo escrito fizesse brotar uma melodia ou, quem sabe, um acorde, seja lá qual for. “Você que é e que não é, e, mesmo não sendo, muito me mudou!”, escreveu. Finalmente algo concreto nisso tudo... Mas isso não era que havia por dentro. Talvez “vazio” expresse bem o que se passava. Talvez! Solidão, essa palavra que não descreve nada e que, ao mesmo tempo, retrata todo um escuro e silencioso palácio de espelhos. Essa sensação de que a liberdade é um fardo pesado demais pra se carregar. Olhou novamente para o violão. Quem sabe agora houvesse conversa. Não, não houve. A postos novamente, tocou firme um sol maior pra tentar animar. O som ecoou seco e se perdeu ao longe. Quis chorar, contudo, mesmo as lagrimas lhe fugiram. Sentiu-se, então, num limbo existencial, como se nada mais fizesse sentido. Ergueu-se, encostou o violão na parede e foi tomar uma água. Ao abrir a geladeira, no entanto, percebeu que não tinha sede, apesar da boca seca. Pegou caneta e papel e voltou mais uma vez à soleira. Virou de costas o violão, apoiou o papel e passou a escrever sem direção: “Alheio ao tempo, eu chego à estação sem saber se o trem já partiu ou se ainda nem chegou. Desconfio, aliás, que não exista trem algum”.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Solidão

A chuva que cai lá fora, molhando a terra, 
é a mesma que agora se confunde com minhas lágrimas, 
há muito represadas. 
Nos olhos dos outros procuro, em vão, alguma compreensão. 
Olho no espelho e, tampouco, consigo encontrar o que procuro. 
É a solidão, com olhar mórbido, quem me fita noite e dia. 
É ela quem me acompanha, de mãos dadas às minhas, pelos caminhos que escolhi.
E é ela quem eu vejo no olhar de quem me vê.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Um caso



Amaram-se loucamente! Foi um daqueles furacões que passam devorando tudo o que está pela frente. Insano, absurdamente insano! Os olhares... Ah, os olhares eram a coisa mais sensual e envolvente entre os dois! Paravam alguns segundos entre um afazer qualquer e outro, as vezes meio com a cabeça torta mesmo, agachados, tanto fazia, e olhavam-se da maneira mais apaixonante que já existiu. Como sei? Sei porque em certa oportunidade, num ato de pura sorte, flagrei os dois assim, no mundo deles, mesmo que aquilo fosse algo secreto, e passei a observar. Como ter algo meramente semelhante é quase impossível de se conseguir, observar e admirar foi o que me restou (o que, aliás, é muito se levarmos em conta que até presenciar algo assim é de uma raridade-agulha-no-palheiro). Voltando. Quando os olhares se cruzavam havia meio que uma conexão instantânea. Os dois entravam em transe e eram imediatamente levados a outro lugar, um lugar só deles, imagino, talvez, pela inexperiência, um jardim ao alvorecer, uma praia num fim de tarde tranquilo, uma cama quentinha e aquele cheirinho de café vindo da cozinha quando se acorda. Junto ao olhar havia um sorriso. Não sei se bem um sorriso. Era mais um riso bem contido e muito singular de satisfação, quase imperceptível, algo à Monalisa, se eu não estiver meio fora de senso. Nesses poucos instantes eu sabia que tudo ao redor sumia para os dois. Ao mesmo tempo, olha como são as coisas, eram nesses poucos instantes que eles se desnudavam para todos ao redor, escancarados - infelizmente não temos mais tempo para observar, sem malícias, o que se passa fora da órbita do nosso umbigo. Era nesses poucos instantes que se contemplava, em primeira fila, uma orquestra louvando com fervor o Amor.  
O tempo - e a gente continua sempre colocando a culpa nele - o tempo passou e mudou as coisas de lugar.  No supermercado eu a vi comprando algumas cebolas. Logo ao lado dela, duas senhoras conversavam sobre a morte de um jovem. Vejam como são as coisas! Esse jovem era justamente, pasmem – ou não, o “ele” do casal apaixonado. Percebi que ela deu aquela estremecida. Coisa pouca, frise-se.  Rabodeolhou, como quem quer prestar atenção, mas as senhoras logo mudaram o assunto. Ela, meio estarrecida, fechou a sacola com um nó rápido de destreza, chamou pelo filho e pelo marido que pegavam contentes alguns tomates, e seguiu, inabalável, o curso que a gente faz normal para a vida.