quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Sonhos

 

Escrevi meus sonhos a lápis

e, com o tempo, eles se apagaram

e amarelou-se o papel

e dissipou-se o brilho no olhar.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

José

 

No velório municipal, num caixão parcelado em um sem-número de vezes, jaz José à espera do pedaço de terra que tanto desejou em vida.

Ao lado do corpo, choram verdadeiramente a mãe e a caçula; próxima ao caixão, a esposa chora. O primogênito, sentado, remói um rancor.

Em volta desse núcleo, pranteiam alguns conhecidos, lamentam-se uns curiosos e todos se esbaldam em clichês.

Lá fora, pelas artérias da cidade, os carros seguem firmes em seu propósito. Dentro deles, pessoas olham de passagem para o punhado de gente enlutada.

 Nem tão longe dali, embaixo de uma árvore, dois jovens dão o primeiro beijo. No hospital, uma mulher dá a luz enquanto outra é morta, em casa, pelo marido. Num raio maior, policiais prendem criminosos, prefeitos assentem ao suborno e morre outro tanto de Josés.

Apartado, pra além do horizonte, presidentes fazem guerras, plantas realizam fotossíntese, fábricas sonâmbulas produzem e o sol vem e vai, pontual.

No final, minúsculo, José deixa apenas carne, vísceras e ossos às vésperas dos vermes.

 

 

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Pela janela de casa

 

Pela janela de casa, observava a chuva copiosa abraçar toda cidade, devolvendo-lhe o frescor. As nuvens turvas eram pintadas de um tom levemente avermelhado pela incessante luminosidade citadina. Deitado no sofá, celular jogado no chão, mas ao alcance para o caso de um mínimo sinal de interação, ele repisava alguns caminhos tortuosos por dentro de si. De repente, um apagão. O roteador desligado escondeu-o do mundo e o restituiu à realidade. Tudo é trevas e o barulho da chuva se tornou ainda mais presente, sensação natural diante da privação de um dos sentidos. Cogitou levantar, contudo, sabia ser um pensamento natimorto. Pensou no celular e em publicar a escuridão. Entretanto, alguém quererá saber? Quem ansiará por conhecer suas atualizações acerca de banalidades? Certamente ninguém! Somos todos tão-somente almas vaidosas sedentas por espelhos, pensou. A chuva que caia constante amansou, a energia deu sinal de vida, as nuvens novamente avermelharam-se e deitado ele permaneceu. Pela janela da casa, a chuva o assistia chover.


sábado, 26 de setembro de 2020

Coração

Meu coração

é pena que voa

sem direção,

lápis que escreve

sem a mão,

música que toca

sem diapasão,

dança que se dança

sem a canção

e pulsa desvairado,

na contramão. 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Pele preta

 

Mais uma vida escorre

pelo asfalto quente

de uma periferia.

O sangue é vermelho;

a pele é preta.

Gritos de dor e desespero

ecoam mudos,

às margens,

pelos séculos.

Aos montes,

amontoados,

corpos opacos ao relento.

sábado, 19 de setembro de 2020

Tempo

 

Somos passado e futuro,

um meio termo amorfo.

Absortos, imprecisos.

Sujeitos ao tempo; sujeitos do tempo.

De joelhos, desejamos o constante presente da eternidade,

cobiçando, em carne, não perder tempo.

E o que é o tempo pra que se perca?

Barcos à deriva num caos de acasos,

contemplamos, resignados, seu constante devir.

 

O tempo nos foge e circunda,

em sua metamorfose perene e cabal.

Metrificá-lo apenas nos aprisionou.

Por que nos fascina se, breves, temos tão pouco tempo?

Nascidos que somos de efêmera matéria,

morreremos, um pouco a cada dia.

Morreremos até que não exista mais nada para morrer.

Alfa e ômega, o Tempo é.



PS: Este poema foi publicado no livro "Cidade Poética", lançado na cidade de São José do Rio Preto/SP, em setembro de 2020.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Lápis

 

Há quem seja caneta,

imutável.

Eu, ao contrário,

sou lápis.

E me apagam.

E apago, com o tempo,

se não renovo

o sentir.